• Paula Lima

Janelando

Já falamos um pouquinho aqui sobre as coisas incríveis que têm acontecido em meio às incertezas e tristezas levantadas pelo distanciamento social: vizinhos ajudando vizinhos, palmas para os profissionais da saúde - e alguns "estouros" de arte que nos ajudam a passar pelo momento difícil e a vislumbrar um modo de viver em comunidade que seja mais humano.


Estamos falando das cantorias coletivas que eclodiram das sacadas italianas, dos músicos que passaram a fazer apresentações e ensaios nas varandas no Brasil e, agora, vamos falar do incrível movimento que ganhou o nome de sacadas literárias.


Começou com Leonardo Tonus, um professor brasileiro que dá aula na Universidade Sorbonne, em Paris, e que percebeu que muitos estudantes estrangeiros ficariam sozinhos durante o período de quarentena - sem acesso a bibliotecas.


Então, ele decidiu criar uma "vizinhança" virtual em que as pessoas pudessem ir para as suas sacadas e ler textos literários - tudo gravado em vídeos de até três minutos que são postados nas redes sociais com as hashtags #sacadasliterarias #literarybalcony #balconslittéraires.


A instrução dada pelo próprio Leonardo é a seguinte: "Basta gravar um vídeo lendo um texto literário que aprecia. Mas a leitura tem de ser feita da sacada de seu apartamento. Do quintal de sua casa. Da janela do seu quarto. De lá onde seus vizinhos poderão, quem sabem, ouvi-la ou ouvi-lo. De lá onde você poderá espalhar a beleza da literatura pelo mundo. E a muitos trazer, quem sabe, um pouco de alento".


Que texto vocês escolheriam para ler num vídeo curtinho da sua sacada, janela ou quintal? Que tal tentar um movimento nesses moldes, talvez por whatsapp com os amigos? Ou mesmo dar a sua contribuição para o projeto que já existe?


A janela de esquina do meu primo

E. T. A. Hoffmann, Cosac&Naify


O Blog escolheria um trecho deste livro para ler numa sacada e fazer um vídeo. É um conto do início do século 19 que traz o diálogo entre um escritor deficiente que, impedido de sair de casa, passa as horas observando uma movimentada praça de Berlim pela janela, e seu primo, que faz uma visita. Os dois dividem impressões minuciosas sobre os tipos humanos que passam pela local público, fazendo observações que revelam muito sobre o olhar e os traços psicológicos de cada um deles. A praça pública movimentada, a multidão e o grotesco são elementos da incipiente modernidade na literatura (e na vida) ocidental que marcam a obra de Hoffmann e viriam a influenciar autores como Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire.






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