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  • Dayan Marchini

Sabedoria e simplicidade: o legado de Cora Coralina

Conhecida por publicar seu primeiro livro quando tinha 75 anos, Cora Coralina se tornou uma das vozes femininas mais relevantes da Literatura Nacional. Seu nome verdadeiro era Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, mas ela adotou o pseudônimo, pelo qual ficou famosa, quando tinha apenas 14 anos, idade que também começou a escrever.



Não morre aquele que deixou na terra
a melodia de seu cântico na música de seus versos.
(Cora Coralina)


Durante grande parte de sua vida, Coralina foi doceira e vendeu doces caseiros para ajudar no sustento de sua família. A poeta, nascida em Goiás, havia perdido o marido e sustentava seus filhos sozinha. Essa experiência com o cotidiano simples e a vivência no interior do Brasil desempenhou um papel fundamental em sua poesia, que retrata a beleza e a dureza da vida no campo, a simplicidade das pessoas e o encanto da natureza.


Sua obra de estreia, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais", foi publicada em 1965 e entre os textos, destaca-se:


Becos de Goiás
Becos da minha terra... Amo tua paisagem triste, ausente e suja. Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa. Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. E a réstia de sol que ao meio-dia desce fugidia, e semeias polmes dourados no teu lixo pobre, calçando de ouro a sandália velha, jogada no monturo.

Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, Descendo de quintais escusos sem pressa, e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.
Amo a avenca delicada que renasce Na frincha de teus muros empenados, e a plantinha desvalida de caule mole que se defende, viceja e floresce no agasalho de tua sombra úmida e calada..."

O livro foi bem recebido, mas sua verdadeira projeção no cenário literário ocorreu apenas nos últimos anos de sua vida, quando publicou "Meu Livro de Cordel" em 1976 e, mais tarde, "Vintém de Cobre: ​​Meias Confissões de Aninha" em 1983. Seus versos transmitem sabedoria, empatia e uma compreensão integral da alma humana. Ela nos lembra da beleza que pode ser encontrada nas coisas mais humildes e, ao mesmo tempo, aborda questões relacionadas que tocam a todos.


Além da poesia, Cora Coralina também escreveu contos e crônicas, como podemos encontrar em "Estórias da Casa Velha da Ponte" (1985), sua última obra publicada antes de seu falecimento, em 10 de abril de 1985, aos 95 anos. Um de seus poemas mais famosos é “Aninha e suas pedras”, presente em “Vintém de cobre: meias confissões de Aninha”:


“Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede”.

Embora tenha cursado até a 3° série do ensino primário, a autora surpreende em termos literários. A linguagem informal pode ser percebida no tom de oralidade da escrita, em que verbos no imperativo sugerem uma ordem (recria, remove, recomeça, faz), destacando a importância daquilo que se diz e a necessidade de se seguir em frente, envolvendo o leitor de forma a se sentir abraçado, em uma estilística muito singular.


Em 1970, Cora Coralina tomou posse da cadeira n.º 5 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e sua notoriedade foi aumentando com a ajuda de Carlos Drummond de Andrade, que foi como um “padrinho literário”, tecendo elogios e engajando sua obra, em 1980, ano em que também recebeu o “Troféu Jaburu” concedido pelo governo de Goiás. Em 1983, a poeta recebe o Troféu Juca Pato, prêmio anual da União Brasileira dos Escritores.(UBE), além da “Ordem do Mérito Cultural”, em 2006.


Podemos ainda, encontrar similaridade em sua obra com as obras de Guimarães Rosa, que explorou a cultura e o dialeto do sertão em romances como "Grande Sertão: Veredas", utilizando uma linguagem poética e complexa para retratar a vida no interior do Brasil (interior de que também fala a poeta, mas dentro de sua região), e de Mário Quintana, poeta gaúcho que escreveu sobre a vida cotidiana e o lirismo das coisas simples. Sua poesia compartilha, em certa medida, da delicadeza e da beleza encontrada nos escritos de Cora Coralina.


A autora foi uma voz autêntica na Literatura Brasileira, representando a riqueza cultural do interior do país e a capacidade de transformar experiências simples em reflexões poéticas. Sua obra continua a inspirar leitores e escritores até hoje, perpetuando seu legado na história da Literatura Nacional.


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