• Patrícia Souza da Silva

O Velho e o Mar: uma metáfora da condição humana

Autoria de Patrícia Souza da Silva, professora do oitavo ano do Ensino Fundamental, bacharel e licenciada em Letras - Português e mestra em Filologia e Língua Portuguesa pela USP.

As fotos que ilustram este texto, também são de autoria da professora Patrícia.


Confesso que nunca tinha lido nada do Hemingway. Por isso, fiquei muito feliz quando ganhei de presente de uma grande amiga O Velho e o Mar. Primeiro, porque adoro ganhar livros; segundo, porque me animou a perspectiva de ler uma obra tão importante no cenário da literatura mundial.


A leitura não só atendeu às minhas expectativas, mas transformou a obra-prima de Hemingway numa das minhas obras favoritas. Em pouco mais de 100 páginas, o livro apresenta uma belíssima metáfora da condição humana. Durante a leitura, é inevitável que o leitor se enxergue em algum momento da narrativa, sendo convidado a refletir sobre temas como superação, envelhecimento, solidão, amizade, perseverança, perdas e conquistas.


Considerado pelos críticos como a obra-prima de Ernest Hemingway, o Velho e o Mar conferiu ao autor norte-americano o Prêmio Pulitzer, em 1953, um ano após sua publicação, e o Nobel da Literatura, em 1954. O livro conta a história de Santiago, um experiente pescador cubano, já bastante velho, que passa por um momento de grande dificuldade, uma vez que está há 84 dias sem conseguir pescar. Como consequência, o pescador enfrenta a falta de dinheiro e a vergonha de ser considerado por todos como um azarão. Até seu único amigo e ajudante, o garoto Manolin, é obrigado pelos pais a se afastar dele, devido à sua má sorte.


Contudo, numa lição de perseverança e fé, Santiago não desiste e continua saindo para pescar todos os dias. Na manhã do 85º dia, o velho finalmente consegue pescar o seu peixe: um imenso espadarte (espécie parecida com um peixe-espada) fica preso ao seu anzol. Mas o animal é tão persistente quanto o velho, e ambos entram numa luta pela sobrevivência que dura longos três dias.


Nesse embate entre homem e natureza, construído de maneira bastante elegante pelo autor, o peixe não é considerado como um inimigo pelo pescador, que se refere ao animal como seu irmão, mas como seu companheiro de jornada. No fluxo de consciência construído na narrativa, vemos como Santiago respeita o peixe, o mar e a natureza. A sabedoria e a força provenientes do peso da idade se revelam na memória, nos gestos, no conhecimento que leva à vitória do homem sobre o peixe, a despeito de todas as dificuldades enfrentadas.


Conquistado o prêmio, é hora de regressar e colher os louros da vitória. Mas a realidade se mostra diferente. Por ser de tamanho descomunal, o espadarte não cabe no barco e tem que ser amarrado ao lado da embarcação. O ferimento causado pelo arpão de Santiago atrai tubarões, que devoram o magnífico peixe enquanto o pescador luta para chegar vivo de volta à praia. Na chegada, apenas a gigantesca carcaça prova que tudo realmente acontecera.


Alguns talvez enxerguem apenas a derrota do pescador frente aos tubarões (o próprio Santiago comenta com Manolin que foi vencido por eles). O que vi foi a vitória de um homem que não desistiu, mas usou de todo conhecimento, força, perseverança e se tornou um exemplo de resiliência frente à dificuldade.


O Velho, assim mesmo, com letra maiúscula, somos nós, que nos pegamos todos os dias aprendendo sobre a nossa finitude e insignificância diante da vida. Caímos, levantamos e aprendemos com os nossos erros. Vencemos e somos vencidos a todo momento.


O Mar, também com letra maiúscula, com sua imensidão e mistérios, nem sempre visíveis, muitas vezes incompreendidos, nos ensina que podemos nos superar a cada dia, enfrentando tubarões diários, e que a grande vitória nem sempre é vista pelos outros, mas reverbera em nosso íntimo.



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O Velho e o Mar

Autor: Ernest Hemingway

Tradução: Fernando de Castro Ferro

Editora: Bertrand Brasil

Páginas: 124