• Gabriela Droichi Antonio

A escrita de Elena Ferrante: sobre lugares, memórias e o rico emaranhado que constitui quem somos

Que mistérios envolvem uma tetralogia de livros em que a autora se mantém no anonimato? A tetralogia Napolitana, da autora Elena Ferrante é o foco do texto de hoje, escrito sob o olhar poético da professora de História, Gabriela Droichi. Um olhar historiador sobre a literatura é extremamente importante, pois os entremeios históricos que passam pelas obras ditam seu teor e sua estrutura, mas além disso, a Gabi nos apresenta uma visão apaixonado pela literatura e pela amizade que dela surge.

Fotografia de Gabriela Droichi Antonio


Queria que todas as pessoas no mundo pudessem, pelo menos uma vez na vida, experimentar a sensação de encontrar em uma obra literária algo que toca em sua alma como a escrita de Elena Ferrante me toca. A autora napolitana tem encantado leitores em todas as partes do mundo, dando origem à chamada "Ferrante fever". ¹

A fascinação por sua obra confunde-se com os mistérios envolvendo a escritora, uma vez que o nome que assina as publicações trata-se de um pseudônimo. O interesse pela real identidade da novelista moveu uma investigação jornalística envolvendo o vazamento de contas bancárias da editora responsável pela publicação de seus livros na Itália. As informações levantadas não foram confirmadas, e Elena Ferrante segue inspirando curiosidade aos leitores espalhados pelo mundo. Segundo a autora, a escolha pelo anonimato foi impulsionada pelo desejo de que o texto seja mais importante do que a pessoa que os escreve.

Dentre os livros publicados sob o nome de Elena Ferrante, a tetralogia napolitana tem um importante destaque. A série de 4 livros, totalizando mais de 1700 páginas, conta as histórias e relações de duas amigas, Lina e Lenu, que cresceram na periferia de Nápoles no pós-guerra. Percorrendo diferentes fases da vida das personagens, conhecemos uma Nápoles marcada pela pobreza, pela violência, pela máfia…


Nos livros de Ferrante a cidade ganha contornos vivos, tornando-se personagem central na narrativa. Cheiros, cores e objetos permeiam a vida das personagens, impulsionando a leitura em um ritmo impressionante. Assim como a cidade que aprendeu a viver às margens da imponência do Vesúvio, o vulcão ativo que em 70 d.C. destruiu Pompéia, os leitores da tetralogia napolitana deparam-se com a força de uma história que ressoa em nossas memórias e emoções.


Fotografia de Gabriela Droichi Antonio


O interesse pelas histórias é tão grande que as ruas do bairro proletário onde Lila e Lenu cresceram viraram roteiro do turismo literário. Distante do centro turístico de uma das cidades mais visitadas da Itália, aqueles que procuram Lila e Lenu encontram ruas marcadas pela passagem do tempo, com prédios envelhecidos, roupas penduradas em janelas e sacadas. Os carros estacionados denunciam o conflito entre o cenário imaginado e o mundo real.

Fotografia de Gabriela Droichi Antonio


Com tamanho impacto, a tetralogia napolitana vem sendo adaptada como série de televisão pela HBO. A aclamada produção conta com a participação da autora na leitura e análise dos roteiros, sendo inteiramente filmada na Itália. De modo a manter-se fiel à ambientação dos livros e ao dialeto falado nas ruas de Nápoles, a série contou com atrizes, atores, roteiristas, produtores e equipe locais. Segundo as críticas, até aqueles que não leram a obra irão se encantar pela produção.



Começando pelos livros ou pelo seriado, o contato com o universo criado por Elena Ferrante nos faz refletir sobre quem somos, nos conectando com emoções e sensações por vezes adormecidas. E talvez este seja o sentido da arte e da literatura. Um sentido que ecoa por anos e traduz as fronteiras do corpo e da memória.


 

¹ Febre Ferrante, em tradução literal.

* Esse texto é uma homenagem à professora Maria Teresa Tezolini. A paixão compartilhada pela escrita de Elena Ferrante foi o assunto de nossa primeira conversa, e a partir daquele momento eu soube que havia encontrado uma amiga.

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