• Gabriela Traversim

Ué, cadê a história que estava aqui?


Os pássaros, Germano Zullo e Albertine. Editora 34.



Você com certeza já deve ter se deparado com algum livro sem texto por aí, não é mesmo? Talvez naquela livraria bacana ou quando foi escolher um livro na biblioteca, você folheou as páginas e pensou “ué, mas esse livro não tem história?”.


Bom, é verdade que estes livros têm pouco ou nada de texto, mas dizer que ele não tem história, aí já é demais! Hoje vou contar um pouquinho sobre os livros sem texto, ou os livros-álbum como são conhecidos no meio literário.


Não necessariamente um livro-álbum é um livro sem história; muito pelo contrário, ele diz muito com pouquíssimas palavras e normalmente o autor e/ou ilustrador usa(m) e abusa(m) das imagens e ilustrações como recurso linguístico-literário. O mais bacana desse gênero são as possibilidades infinitas que ele nos traz; vários leitores podem ter interpretações diferentes e para cada um de nós leitores será uma experiência significativa e de aprendizagem, porque vamos entendê-lo a partir de nossas próprias experiências.


Neste este artigo da revista Emília, escrito por Dolores Prades, pude notar algo que normalmente não é experienciado nas leituras de livros ditos “convencionais”:

"Diferentemente da leitura de um texto narrativo em voz alta, que deixa livre a imaginação de quem lê e de quem escuta, a leitura de um livro-álbum pressupõe diferentes olhares sobre as imagens. Todas essas leituras dependem e correspondem sempre ao universo de referência de cada leitor (seja ele o leitor ou o ouvinte) e ambas são igualmente importantes e estimulam, a seu modo, diferentes níveis de imaginação e interpretação."


Daqui ninguém passa, Isabel Minhós Martins e Bruno Carvalho. Editora Peirópolis.



De forma geral, a literatura já está intrinsecamente ligada à imaginação, mas essa nova experiência de imaginar traz novas perspectivas de leitura para os leitores, principalmente àqueles que estão começando. Em um outro artigo, escrito por Anita Prades, também da Revista Emília, é citada a educadora colombiana Yolanda Reyes, que

identifica na atualidade uma profusão de discursos que “nos ensinam a ser mais conformistas e menos imaginativos, como se sonhar, inventar ou criar fossem operações mentais reservadas a um punhado de gênios isolados e não necessidades vitais”. Para a autora, é justamente nessa problemática que reside a importância da literatura na escola, em um esforço de se “aportar para a transformação deste mundo cada vez mais mutável”.

Aproveitando o gancho, chamo a atenção a este momento único que estamos vivendo; dentro de suas casas, cada vez mais as crianças, e nós adultos também, estão imaginando outras realidades para lidarmos com que estamos vivendo no dia a dia. Nesse mesmo texto da revista Emília, é aludido o livro "A Arte de ler: ou como resiste à adversidade", da pesquisadora Michèle Petit e que


[...] exemplifica diversas situações de indivíduos ou comunidades em situações de extrema vulnerabilidade – guerra, exílio, miséria -, nas quais a literatura possibilitou respiros de resistência e indagação, em singulares experiências de leitura e compartilhamento de relatos.”

João e Maria, Rosinha. Editora Callis.



Bom, livros-álbum podem parecer fáceis e singelos se olharmos na perspectiva de que o livro, para nos “ensinar algo”, tem que ser um calhamaço. Ao olharmos os livros-álbum como olhamos um filme (prestamos atenção tanto na imagem quanto na legenda, quando vamos ao cinema não é mesmo? E às vezes, a legenda é até dispensável em algumas situações) é possível notar que ele traz tanta informação e conhecimento quanto qualquer outro tipo de literatura.


Alguns autores são conhecidos por esse gênero literário e dois deles, inclusive, já estiveram no Colégio Uirapuru em 2018; você pode ler sobre eles aqui e aqui. Os mais famosos são Stephen Michael King, Shaun Tan, Fernando Vilela e Stela Barbieri, a dupla Blandina Franco e José Carlos Lollo, Odilon Moraes, alguns livros do Anthony Browne também podem ser encaixados nessa categoria... Veja abaixo!



Outros ainda menos conhecidos, mas não menos importantes, estão galgando espaço nesse gênero. A seguir, você confere uma listinha com algumas indicações para se aventurar nesses livros:

  • Bola Vermelha, Vanina Starkoff; Editora Pulo do Gato;

  • Os pássaros, Germano Zullo e Albertine. Editora 34;

  • Todos eles viram o gato, Brendan Wenzel; Publifolhinha;

  • Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Os três porquinhos, Rosinha. Coleção conto imagem editora Callis:

  • Aventura Animal, Fernando Vilela. DCL;

  • A toalha vermelha, Fernando Vilela. Brinque-book;

  • Contêinier, Fernando Vilela. Pequena Zahar;

  • O mundo num segundo, Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho. Peirópolis;

  • Daqui Ninguém Passa, Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho. Peirópolis.

  • Azul e vermelho, Mireya Tabuas, Patricia Van Dalen, Ricardo Báez. Peirópolis.

  • Nanquim, Janaina Tokitaka. Editora Cortez;

  • O que eu posso ser? Mariana Zanetti e Silvia Amstalden. Companhia das Letrinhas;

  • O Lenço, Patrícia Auerbach. Brinque-book;

  • Bocejo, Renato Moriconi e Ilan Brenman. Companhia das Letrinhas;

  • Quebra-cabeças, Diego Bianki. WMF Martins Fontes;

  • Tudo Muda, Anthony Browne. Pequena Zahar;

  • Bruxinha Zuzu, Eva Furnari. Editora Moderna;

  • Traquinagens e Estripulias, Eva Furnari. Editora Global;

  • Folha, Stephen Michael King. Brinque-book;



Por último, mas não menos importante, quero ressaltar esse trechinho que o pessoal do Laboratório da Educação escreveu neste artigo aqui sobre o termo “livro-álbum”:

Esse termo ainda não é consenso entre os especialistas. Ao buscarmos esse tipo de livro podemos encontrar outras denominações como: “livro ilustrado”, “álbum ilustrado” ou simplesmente “álbum”. Aqui utilizamos o termo “livro álbum” por acreditarmos que representa conceitualmente como é composto: livro, em relação aos textos escritos e álbum, em relação às imagens que o compõem e a relação entre ambos.”

Deixo também algumas indicações de leitura que falam um pouquinho mais sobre esse gênero literário:

O mundo num segundo, Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho. Editora Peirópolis.



PRADES, Dolores. Passado e futuro do livro álbum. 21 set. 2016. Revista Emília.

PRADES, Anita. Imaginar é resistir. 27 mar. 2020. Revista Emília.

TERRUSSI, Marcella. Mudo de Beleza. 19 set. 2020. Revista Emília.

GUILHERME, Denise. O Processo de criação e edição de um livro-álbum. 13 ago. 2018.