• Paula Lima

Reinações de... Lobato

Ele foi reprovado em português, sentava no fundão da sala, estudava só o que interessava, passava as aulas desenhando, fazia caricaturas dos professores, achava as aulas muuuito chatas e brigava na hora do intervalo. Essa poderia ser a descrição de algum menino que você com certeza já conheceu, mas este aqui viveu num tempo em que as pessoas andavam de bonde e escreviam cartas para contar da vida.


Estamos falando de José Renato Monteiro Lobato, que mudou o nome para José Bento Monteiro Lobato para poder usar a bengala do avô, que tinha suas iniciais (e também se chamava José Bento Monteiro Lobato). O próprio escritor conta tudo isso no livro Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia, de Marisa Lajolo e Lilia M. Schwarcz, da Companhia das Letrinhas.



As autoras optaram por escrever a biografia de Lobato para crianças e jovens em primeira pessoa, como se fosse uma autobiografia. Com projeto gráfico que lembra um scrapbook misturado com um diário, o livro conta tudo isso e muito mais: que o sonho do autor era ser pintor, que ele fez faculdade de direito, que amava perambular por São Paulo, que foi fazendeiro, editor, tradutor, morou nos Estados Unidos… além, é claro, de ter criado Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastácia e companhia.



Se como criança Lobato já causava bastante, como adulto nem se fala. Como quando escreveu no jornal O Estado de S. Paulo sobre uma exposição da pintora Anita Malfatti, em 1917. Ela não pintava de maneira realista e o escritor não gostava desse estilo, o que deixou bem claro em seu artigo. Um grupo de artistas e escritores saiu em defesa de Anita, respondendo Lobato pelos jornais, e toda essa movimentação culminou com a Semana de Arte Moderna de 1922, evento que aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo e mudou o jeito de se fazer e pensar arte no Brasil inteiro.



E, mesmo depois de setenta anos de sua morte, ele continua pautando discussões acaloradas. É o caso do racismo. Na biografia, o Lobato narrador diz o seguinte sobre a forma como tratava Tia Nastácia:


“Um de meus personagens - estou sabendo - é motivo de muita discussão hoje em dia: a querida Tia Nastácia. Uma cozinheira negra, que Emília muitas vezes chama de ‘negra beiçuda’, uma expressão que hoje seria (com todas as razões) inaceitável. [...] O Brasil em que nasci e vivi era outro. Nesse Brasil de antigamente, prolongavam-se o preconceito e o racismo construídos ao longo dos muitos séculos de escravidão. Éramos, sempre fomos - e talvez nesse tempo seu a gente ainda seja -, uma cultura racista, preconceituosa. Eu não percebia isso naquele momento. Nem eu nem muitos outros brasileiros.”


E aí, o que vocês pensam sobre esse assunto?


Uma boa oportunidade para conversar sobre isso e sobre outros assuntos tratados na biografia é o bate-papo com a autora do livro, Marisa Lajolo, para a inauguração do Auditório do Colégio no dia 28|08, às 19h30. As inscrições podem ser feitas aqui. Vamos?


Livro: Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia

Autoras: Marisa Lajolo e Lilia M. Schwarcz

Ilustradora: Lole

Editora: Companhia das Letrinhas

Páginas: 88

Ano: 2019