• Mônica Miliani Martinez

A leitura no século XXI: novas fronteiras, antigos paradigmas

Atualizado: Mai 12

Resenha crítica do livro “O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era”, da pesquisadora e professora norte-americana Maryanne Wolf, por Mônica Miliani Martinez, professora da eletiva ”Linguagens/Humanidades" e assessora de Linguagens do Ensino Médio do Colégio Uirapuru. Mônica é licenciada em Letras, bacharel em Linguística e mestra em Análise do discurso pela UNICAMP, além de doutoranda em Linguística pela mesma instituição.



"Os circuitos do cérebro leitor são formados e desenvolvidos por fatores tanto naturais como ambientais, incluindo a mídia em que a capacidade de ler é adquirida e desenvolvida. Cada mídia de leitura favorece certos processos cognitivos em detrimento de outros"

(Wolf, 2019, p. 16)


A dinâmica do século XXI altera significativamente nossas formas de manipular e reter novas informações. Essa transformação, cuja atenção recai para o tipo de leitores que fomos, somos e seremos, situa "O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era" (Editora Contexto, 2019), da pesquisadora e professora norte-americana Maryanne Wolf, como um texto essencial e ambicioso, que considera o futuro do cérebro leitor e da nossa capacidade crítica de pensar como profundamente dependentes das tecnologias digitais. No entanto, é preciso assumir, logo de entrada, que não há respostas simples para problemas complexos, por isso essa obra é o tipo de experiência obrigatória para educadores, para pais e para todos que questionam como a tecnologia afeta, de fato, nossos gestos de leitura.


O livro, composto por uma série de cartas que Wolf escreve para os leitores (chamados por ela de "beloved readers"), descreve as preocupações e esperanças da autora sobre o que está acontecendo com o cérebro leitor para se adaptar às mudanças inevitáveis oferecidas pelas novas mídias. Para isso, ela descreve fatos e dados de diferentes campos, como a neurociência, a literatura, a educação, a tecnologia, para desenhar um cenário provocativo que ilumina nosso olhar leitor para os fluxos de leitura do nosso cotidiano, culminando em uma proposta muito produtiva: exercitar a bilateralidade do cérebro leitor, ou seja, a possibilidade de ensinar crianças a ler, primeiramente, os livros físicos - reforçando os circuitos cerebrais de leitura - para depois convidá-los a decodificar as telas de forma efetiva.


Na primeira carta, a autora afirma que, a depender dos processos que dominam a formação do circuito jovem de leitura das crianças, há profundas diferenças em como elas processam os textos e, principalmente, como pensam. A comprovação dessa afirmação central, que atravessa toda a obra, tem por objetivo garantir a preservação de nossas capacidades críticas. A pesquisadora sugere um exame cuidadoso e sistemático dos impactos das várias mídias sobre aquisição e manutenção do cérebro leitor, considerando, sem dúvidas, os aspectos linguísticos, cognitivos, fisiológicos e emocionais envolvidos no processo. A leitura em meios digitais, como afirma a autora, facilita a busca por palavras-chave que descrevem o contexto geral da obra, autorizando possíveis conclusões precipitadas sobre o conteúdo dos textos. Esse processo, de acordo com Wolf, dificulta o desenvolvimento de percursos de leitura profunda, pois ela exige um esforço razoável para ser atingida.


Na segunda carta, o foco está na explicação dos mecanismos biológicos que constroem o cérebro leitor. Nesse ponto, há uma comparação muito pertinente entre a capacidade inata para a linguagem e o fato de a leitura não funcionar da mesma forma, exigindo que seja ensinada. O linguista e filósofo Noam Chomsky argumenta que a linguagem que a criança ouve, ou seja, os dados linguísticos primários, não podem ser a base para a sua competência linguística. Se fosse assim, como a criança seria capaz de dominar um sistema linguístico complexo e pronunciar sentenças que nunca pronunciou ou ouviu antes? A corrente inatista de Chomsky defende que as crianças já nascem com uma gramática internalizada e, a partir do convívio com a fala dos adultos, ela vai moldando a sua. Seria ótimo se isso também acontecesse com a leitura, mas não. A leitura não é inata e, infelizmente, não emerge, como afirma Wolf, de forma completa quando a criança estiver pronta.


Ainda, na mesma carta, Wolf mobiliza um conceito riquíssimo - a neuroplasticidade - para explicar como o cérebro leitor é inerentemente maleável, passível de mudanças conforme a leitura, e é influenciado por alguns fatores ambientais, como aquilo que se lê (o sistema de escrita + o seu conteúdo), como se lê (a mídia utilizada para a leitura - se impressa ou digital) e como o sujeito é formado (os métodos de instrução praticados). De acordo com a autora, quando "o cérebro é defrontado com algo novo que tem que ser aprendido, ele não só realoca seus componentes originais (...), mas consegue reequipar alguns grupos de neurônios dessas mesmas áreas para satisfazer as necessidades específicas da nova função" (2019, p.27). Por isso, precisamos de um ambiente que nos ajude a desenvolver diferentes processos cognitivos de modo que cada cérebro possa formar seu próprio circuito de leitura novinho em folha.


E já que estamos falando em ampliação de leitura, quando pensamos em neuroplasticidade, facilmente lembramos dos relatos do neurologista e professor Oliver Sacks, na obra "Um antropólogo em Marte". O nome do livro é uma expressão utilizada por Temple Grandin, uma das mais notáveis professoras autistas, com PhD em Ciências Animais. Segundo Grandin, a dificuldade de entender as reações e os sentimentos ditos "normais" são tão difíceis que ela se sente uma "antropóloga em Marte", isto é, o que parece "anormal" para uns, é absolutamente "normal" para outros. Essa obra, que vale cada segundo de leitura, narra histórias reais, em especial, de um pintor daltônico que, após um trágico acidente de carro aos 65 anos, lesionou a parte do cérebro especializada na percepção das cores e passou a enxergar o mundo em preto e branco. Mais admirável que esse fato, é a atuação da neuroplasticidade que permite ao pintor se adaptar (fisiológica e socialmente) e tirar proveito dessa nova condição.


Após essa breve remissão, voltamos para a terceira carta, que associa a qualidade dos processos de leitura profunda à nossa capacidade empática. Inicialmente, Wolf explica o que acontece quando lemos sentenças, ação que não é, de fato, um exercício de "juntar partes", mas sim a ativação dos circuitos de predição e de percepção. O que sabemos antes de ler uma sentença nos auxilia diretamente, de forma rápida e precisa, a identificar os contextos, os sentidos das palavras e a forma visual de cada termo. De fato, para que esse fluxo cognitivo seja mobilizado com eficiência, é preciso desenvolver mecanismos de leitura profunda, pois a qualidade do que lemos depende desse desenvolvimento, formação que leva anos para acontecer de fato. Tomada por essa questão, Wolf questiona: ao deixarmos uma cultura leitora baseada no impresso para outra estruturada digitalmente, quais são as ameaças cognitivas dessa transição?


Como possível guia de resposta, Wolf propõe que os diversos estímulos do contexto digital impedem o desenvolvimento da leitura profunda, então, os conteúdos que estamos lendo - de forma distraída e sem profundidade - são incapazes de desenvolver conhecimento de fundo e empatia suficientes para as demandas do século XXI. Essa associação - entre a falta de profundidade na leitura e a falta de empatia - faz todo sentido se assumirmos, como aponta a autora, que a leitura é um meio de transporte: por meio dela, saímos das nossas visões limitadas de mundo para entrar no mundo de outras pessoas e voltar amadurecidos dessa viagem. A entrada na vida do outro exige dedicação e tempo, e pode significar muito para nossas próprias vidas, como a possibilidade de sermos mais empáticos, solidários e cautelosos para julgamentos baseados em estereótipos pré concebidos. Pela leitura, podemos desenvolver a "paciência cognitiva", ou seja, a percepção da diferença na qualidade da imersão de leitura e como isso afeta, de forma positiva ou negativa, nossos processos de autoencontro. Mais: os livros ajudam diretamente na compreensão da perspectiva do outro como um "antídoto" contra temores e preconceitos que muitos abrigam sem ao menos saber. Se a leitura pode ser vista como um antídoto, então quanto mais lermos de forma profunda, mais nos aproximamos da cura para as diversas cegueiras sociais que nos atravessam.


Na quarta carta, Wolf apresenta a metáfora do "olhar calmo". O ponto central desse capítulo é nossa capacidade de retenção das informações lidas, dado que perdemos a qualidade de atenção necessária para constituir e sustentar, de forma cognitiva, a leitura profunda em virtude da superexposição tecnológica. A autora declara sua preocupação sobre nossa capacidade de percepção ao pontuar que o excedente de estímulos sensoriais impede o desenvolvimento de um "olhar calmo" para a leitura. Em nosso cotidiano escolar, é muito comum ouvirmos reclamações sobre o tempo exigido para, de fato, compreender a estrutura de sentenças mais difíceis, os pressupostos e subentendidos, ou a identificação do assunto, do tema e dos enfoques de textos de curto, médio e longo porte. Essas queixas podem indicar que a impaciência na leitura, sustentada pela deficiência nos processos de leitura profunda, está associada às estratégias de leitura em "F", estilo zigue-zague, típica das redes sociais, ou à leitura "pula-linha", ambas fortemente prejudiciais para a estruturação dos conhecimentos de fundo, para o desenvolvimento da criticidade e para a retenção de informações na memória.


Inclusive, Wolf associa a riqueza e o poder dos processos de leitura profunda ao desenvolvimento, de fato, de uma sociedade democrática, porque "o modo como os nossos cidadãos pensam, decidem e votam depende de sua capacidade coletiva de navegar pelas realidades complexas de um meio digital com intelectos não capazes e acostumados a uma análise e compreensão de nível mais elevado" (2019, p.112). Talvez, uma das maiores contribuições da autora para nosso cotidiano leitor seja a pergunta "por que lemos?", pois pensar nessa pergunta (e em sua possível resposta) é o exercício democrático da liberdade de pensamento. Wolf lê para encontrar uma nova razão para amar os livros, para desfrutar da imaginação (e o que está além dela), para viver outros mundos e outras experiências de vida, para ir muito longe e voltar para si. E, nós, enquanto instituição, enquanto docentes, enquanto mães, pais, tias, tios, irmãs e irmãos: por que lemos? E por que ensinamos a ler? Como ensinamos a ler se não somos, de fato, leitores? Como queremos uma sociedade melhor se não somos capazes de ler sem pular linhas ou sem abrir as redes sociais?


Com essas perguntas em mente, caminhamos para a quinta carta. Nela, a reflexão-chave centra-se no modo como "criamos" as crianças, herdeiras do século XXI, favorecendo a rapidez, o imediatismo, com altos níveis de estimulação, pluralidade de tarefas e grandes quantidades de informação. Segundo Wolf, um dos grandes desafios do ensino da leitura é o "aprender a se concentrar". Esse desafio essencial é cada vez mais difícil, em especial, na atual cultura da distração, geradora de crianças e jovens com "mentes de gafanhoto" (descrição de Wolf para a mente saltitante do jovem digitalizado que passa de um ponto para outro, sempre distraído de sua tarefa inicial), que ficam entediados facilmente, porque não desenvolveram a paciência cognitiva oferecida pela leitura profunda. É como diz o neurocientista Daniel Levitin: "precisamos nos treinar para perseguir a recompensa demorada e renunciar à recompensa rápida".


Dentro dessa perspectiva, situa-se o desafio da nossa realidade presente não apenas na sexta carta, como em todo livro: não podemos (e nem devemos) recuar, como não devemos avançar impensadamente quando o assunto é a relação entre a leitura, a tecnologia e o cérebro leitor. Esse momento, talvez o mais terno da obra, destaca a importância das experiências de leitura entre pais e filhos. Wolf revela que esse momento de conexão familiar é fundamental para a interação humana e suas associações com o sentir, para o desenvolvimento da atenção partilhada, com olhares afetuosos e orientações acolhedoras, e para a exposição diária a novas palavras e novos conceitos à medida que reaparecem a cada releitura. No capítulo, alguns pediatras norte-americanos afirmam que, para mudar o padrão de leitura entre pais e filhos, são necessários livros, não aplicativos, em especial até os cinco anos de idade.


Na sétima carta, a autora analisa a crise de leitura no sistema educacional norte-americano, em especial, como o sucesso ou o fracasso nessa fase da vida das crianças tende a ser determinante para o futuro escolar do indivíduo. Segundo Wolf, entre 5 e 10 anos, as crianças experienciam uma fase decisiva para a aprendizagem de leitura, período que ela nomeia como "buraco negro da educação americana" porque os infantes que não aprendem a ler fluentemente durante esse período passam a ser invisíveis para o sistema escolar. Além disso, ela adiciona o fato de que as crianças com dificuldade de aprendizagem ou com baixo desenvolvimento das habilidades leitoras, seja por fatores internos à escola ou externos a ela, tendem a "desistir" da leitura antes de completar dez anos de idade, seguindo para a adolescência e fase adulta com pouca esperança de alcançar quaisquer sonhos. Wolf afirma que nossas crianças precisam desenvolver hábitos mentais que possam ser efetivamente aplicados na vida em sociedade, portanto, o professor-leitor é fundamental para mediar esse processo.


Na oitava carta, a autora discute a dificuldade de construir conjuntos polivalentes de circuitos no cérebro que preparem o jovem para pensar sobre o conhecimento e sobre a flexibilidade cognitiva. A proposta de Wolf é "pensar em cada meio" (se impresso ou digital) de forma separada, por domínios específicos, nos primeiros anos escolares, para que ambos - a habilidade de leitura do texto impresso e do texto digital - sejam desenvolvidos e internalizados sem que um prejudique o outro. Como obstáculos, a pesquisadora indica a baixa quantidade de pesquisas sobre o duplo letramento de leitura (no papel e no digital), as lacunas técnicas na formação dos professores, além dos abismos sociais para o acesso tecnológico.


A última carta de Wolf mobiliza os conhecimentos filosóficos de Aristóteles para destacar as três vidas essenciais para uma sociedade saudável: a primeira é dedicada ao conhecimento e à produtividade; a segunda para a diversão, e a terceira para a contemplação. Essa parece ser uma boa representação para o curso da vida de um leitor: dedicamos tempo para o conhecimento, depois aplicamos esse conhecimento em nossas rotinas e tiramos proveito dessa conexão - como quando rompemos a barreira aparentemente intransponível de um livro ou quando deciframos um enigma a partir de nosso conhecimento de mundo -, para, por último, ter o prazer da contemplação, quando aprendemos a lidar com nossos pensamentos e sentimentos, movidos, em grande medida, pelas vozes das leituras que fizemos e que formam nosso conjunto ideológico.


Por fim, essa resenha é, sem dúvida, um panorama superficial da riqueza contida na obra de Maryanne Wolf. Nesse percurso, se foi possível compreender que cada mídia de leitura favorece certos processos cognitivos em detrimento de outros, e que se perdermos a capacidade de pensar criticamente, perdemos também a possibilidade de examinar o que pensam aqueles que nos governam, a missão dessa sugestão de leitura está realizada. O papel da escola e das famílias, como se pode notar, nunca foi tão essencial para a sociedade, por isso não basta reconhecer a importância da leitura na constituição de um ser: se o DISCURSO é também UMA PRÁTICA SOCIAL, então a leitura exige, além de trabalho e empenho constantes, AÇÃO para desenvolver o fôlego necessário para a leitura do mundo e de si, reconhecendo os processos de desinformação que esvaziam o debate democrático e a postura empática. Obrigada, Wolf: avante, Leitura!!





A autora do livro, Maryanne Wolf.


REFERÊNCIAS

CHOMSKY, Noam. Reflexões sobre a linguagem. Lisboa: Edições 70, 1977.

CHOMSKY, Noam. Regras e representações. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

LEVITIN, Daniel. A mente organizada. São Paulo: Objetiva, 2015.

WOLF, Maryanne. O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era. São Paulo: Contexto, 2019.


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