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  • Dayan Marchini

A alma humana por trás da aridez de Vidas Secas

“Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito”. (Graciliano Ramos)

Ambientado no Sertão do Nordeste, por meio da história da família de retirantes composta por Fabiano, Sinhá Vitória, seus filhos e a cachorra Baleia, Graciliano Ramos criou um microcosmo que reflete as desigualdades e as injustiças da sociedade brasileira da época. Através dessa história, o autor questiona o papel do indivíduo em um mundo marcado pela aridez física e emocional, em uma denúncia ao descaso social e à exploração humana.


Em um primeiro capítulo que expõe os filhos de Fabiano como “mais novo” e “mais velho”, sem indício de nome e sobrenome, já somos introduzidos à crítica em relação à falta de identidade que carregam as pessoas que vivem em situação semelhante à da família que compõe a obra. Com uma precisão estética que permite ao leitor começar a leitura por onde quiser, independente se do começo, meio ou fim, cada um dos 13 capítulos possui seu enredo próprio.

O primeiro capítulo de Vidas Secas, “Baleia”, que Graciliano Ramos escreveu em maio de 1937 – Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP


Outro ponto muito interessante é o fato de que a cachorra Baleia é apresentada de maneira muito mais humanizada do que as próprias pessoas da história, propondo uma reflexão demonstrativa do quanto a condição da desigualdade social extrema é capaz de transformar o comportamento do homem enquanto ser racional, ou seja, o antropomorfismo nas atitudes do animal e a zoomorfização na postura humana.


Composta, aliás, por personagens complexos e multifacetados, Vidas Secas revela camadas psicológicas sob a pressão das circunstâncias. Fabiano, por exemplo, expressa uma mistura de determinação e desespero, ansiando por uma vida melhor, mas muitas vezes sendo derrotado pela realidade que o cerca. A relação entre Sinhá Vitória e a cadela, dispõe de uma porta para a solidão compartilhada e a conexão emocional que transcende as barreiras linguísticas.


Por meio de uma linguagem objetiva e, ao mesmo tempo quase que milimetricamente pensada, Graciliano Ramos usa como de um conta-gotas, em que cada uma dessas gotas transcende de um deserto de palavras que flertam com a urgência da sobrevivência e a falta de espaço para o supérfluo. No entanto, esta técnica aparentemente simples, não impede que a profundidade emocional dos personagens transpareça. O fluxo de consciência constante permite que os leitores mergulhem nesses pensamentos, tornando a narrativa visceral e empática.


Repleta de simbolismo e metáforas que aprofundam o significado da obra, o ciclo interminável de seca e chuva ecoa a esperança intercalada com a desilusão, enquanto conduz para uma jornada realista e ainda muito atual, revelando a luta universal pela dignidade, mesmo em meio à aparente aridez do mundo. O título escolhido, conforme já declarou o próprio autor, destaca a “existência miserável de trabalho, de luta, sob o guante da natureza implacável e da injustiça humana”.


Os retirantes, óleo sobre tela, de Cândido Portinari feita em 1944.


Diante da denúncia apresentada no livro, é possível notar também, um diálogo intertextual com outras obras de arte, como “Retirantes”, de Portinari, em que o pintor retrata a migração nordestina pela busca de melhores condições de vida em outros estados do país. Há também momentos de pequenas felicidades sentidas pelos personagens, o que flerta com as emoções de Macabéa, figura principal do livro “A hora da estrela” de Clarice Lispector, uma retirante, também nordestina, lutando contra as dificuldades e preconceitos que a rondam.

Marcada pela miséria, Vidas Secas é uma obra que até hoje perpetua pela Literatura Brasileira, sendo considerada ainda, como texto documental, por trazer à tona o retrato de uma das realidades mais árduas do nosso país, além de uma leitura obrigatória dos vestibulares devido ao seu cunho de importância no repertório leitor dos estudantes. O enredo permanece como um testemunho atemporal da resiliência do espírito humano diante das adversidades, além de marcar um período e evocar uma luta.


O SERTÃO DE CADA UM, por Gabriella Monteiro Pezatto Gomes


Representado na obra como um ambiente duro, hostil e, sobretudo, determinante àqueles que se submetiam a ele, o sertão de Graciliano fomentou o estudo do romance pelos alunos do 9º ano do colégio, que puderam desfrutar de sua leitura e análise. Além disso, o determinismo presente na narrativa graciliana e compreendido na figura do sertão serviu de paradigma para o desenvolvimento do projeto "O sertão de cada um", no qual os alunos são convidados a revisitar sua própria constituição e formação, moldadas a partir de vivências que os levaram a ser, atualmente, quem são.


A proposta parte do questionamento: O que/quem foi [seu sertão] determinante para que se tornasse quem é hoje? Os alunos, então, elaboram um mapa mental, colocando-se como elemento central de suas memórias, a fim de revisitar pessoas, espaços, momentos, objetos afetivos, entre outros, que determinaram suas vidas. Para esse fim, contam com recursos textuais: poema, poema visual, carta, conto, crônica, letra de canção e, também, elementos que a representam e caracterizam essas recordações: fotos, objetos, outros textos. As produções dos alunos, registradas em telas de algodão cru, comporão um cenário ambientado no sertão nordestino e estarão em exposição no Festival das Letras 2023, no dia 5 de outubro.



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